As universidades de pesquisa dos EUA enfrentavam desafios sérios muito antes dos cortes do governo Trump no financiamento à pesquisa, segundo Robert Brown, presidente emérito da Boston University e autor de “Fighting Fires and Building Flywheels: How We Sustain America’s Research Universities”. Em entrevista ao Inside Higher Ed, Brown argumentou que o setor precisa de um foco institucional mais definido e de uma relação mais previsível com o governo federal.
Brown passou 25 anos no Massachusetts Institute of Technology antes de ingressar na Boston University, onde foi presidente de 2005 a 2023. Durante seu mandato, a BU foi admitida na Association of American Universities em 2012. Seu livro combina história institucional, memórias e uma análise de como as universidades de pesquisa funcionam e respondem às crises.
Ao refletir sobre seu período na BU, Brown descreveu as principais universidades de pesquisa como instituições globais e partes essenciais de suas comunidades locais. Ele afirmou que as universidades devem continuar responsáveis pelas regiões onde operam, mesmo enquanto atraem estudantes e pesquisadores de todo o mundo.
Brown afirmou que as universidades de pesquisa estavam sob pressão crescente desde pelo menos o período posterior à crise financeira de 2008. Os gastos federais com pesquisa não acompanharam a inflação nem o número crescente de instituições que buscavam obter o status de universidade de pesquisa, enquanto as universidades assumiam uma parcela maior dos custos da pesquisa. Ele citou dados de 2022 mostrando que as universidades R-1 gastaram 45 centavos de seus próprios recursos para cada dólar federal que receberam para pesquisa.
Ao mesmo tempo, as preocupações públicas sobre o custo e o valor do ensino superior se intensificaram. Brown afirmou que as universidades não conseguiram explicar claramente a importância de seu papel cada vez maior na pesquisa básica, especialmente à medida que os laboratórios corporativos diminuíram. Ele argumentou que simplesmente prometer uma comunicação mais eficaz não resolveria os problemas de financiamento subjacentes.
O setor também enfrenta pressões demográficas, incluindo a queda nas matrículas em algumas universidades importantes e os consequentes cortes orçamentários. Brown afirmou que essas dificuldades foram agravadas pelas restrições do governo Trump ao financiamento da pesquisa e por sua pressão sobre universidades privadas de pesquisa, especialmente no Nordeste. Ele também apontou propostas para limitar a participação de estudantes internacionais como uma fonte adicional de tensão.
Brown afirmou que o apoio federal à pesquisa já havia se tornado menos bipartidário antes do governo atual. Embora os parlamentares continuassem expressando apoio à pesquisa científica, os orçamentos federais não proporcionavam o aumento do investimento de que as universidades precisavam. Ele citou a CHIPS Act como exemplo de uma legislação que recebeu amplo apoio, mas que, segundo seu relato, não foi acompanhada por dotações suficientes para alcançar seus objetivos.
Em vez de tentar determinar quantas universidades de pesquisa os Estados Unidos deveriam ter, Brown afirmou que as instituições deveriam decidir em quais áreas podem ser competitivas nacionalmente. A maioria das universidades, argumentou, não tem condições de se destacar em todas as disciplinas, mas muitas continuam tentando manter ambições abrangentes. Concentrar recursos em áreas selecionadas poderia ajudar as instituições a controlar custos e fortalecer suas missões acadêmicas.
Brown identificou dois requisitos centrais para o futuro. As universidades precisam aprender a operar com menos recursos, ao mesmo tempo que reconsideram o equilíbrio entre ensino e pesquisa. Paralelamente, o país precisa estabelecer um novo acordo entre o governo federal e as universidades que proporcione maior previsibilidade para o financiamento da pesquisa.
Ele advertiu que retornar às condições anteriores ao governo Trump não resolveria os problemas do setor, porque as universidades já eram financeiramente vulneráveis. Brown também demonstrou preocupação com a redução da duração dos mandatos dos presidentes universitários, argumentando que a reforma institucional exige liderança sustentada, e não uma gestão de crises de curto prazo.
Em sua opinião, o financiamento corporativo e filantrópico não pode substituir o apoio federal. O financiamento corporativo representa cerca de 4,5% do financiamento total das universidades de pesquisa dos EUA, em comparação com 55% provenientes do governo federal, afirmou. O financiamento privado também se concentra em determinados pesquisadores e áreas, em vez de ser distribuído amplamente entre as instituições.
Brown também questionou se as estruturas universitárias existentes são adequadas às áreas emergentes do conhecimento. Os departamentos continuam organizados em torno de disciplinas, embora muitos problemas importantes atravessem essas fronteiras, enquanto a criação de novos campos pode tornar as universidades cada vez mais fragmentadas. Ele também afirmou que a lenta rotatividade associada à estabilidade acadêmica poderia dificultar a adoção de novos métodos de ensino à medida que a inteligência artificial muda a forma como as pessoas acessam e utilizam o conhecimento.
Fontes: Inside Higher Ed.