Sara, cujo nome verdadeiro foi omitido, passou anos a tentar concretizar a sua ambição de se tornar médica. Depois de conseguir uma vaga na faculdade de medicina da Universidade de Cabul, em fevereiro de 2021, perdeu a oportunidade de estudar quando os talibãs regressaram ao poder e impediram as mulheres de frequentar o ensino universitário.

Mais tarde, a Universidade de Glasgow ofereceu-lhe uma vaga num curso preparatório da sua faculdade de medicina, medicina dentária e enfermagem, concebido como uma via para obter um diploma completo. Sara tinha conseguido financiamento para o curso, e os seus professores descreviam-na como uma estudante competente e dedicada. O pedido de visto foi apresentado poucos dias antes de o Reino Unido introduzir, em março de 2026, uma suspensão de vistos para estudantes do Afeganistão, do Sudão, de Myanmar e dos Camarões.

O Ministério do Interior rejeitou o seu pedido três vezes. Numa das recusas, os funcionários disseram que ela tinha financiamento suficiente, mas que não era uma estudante genuína. Noutra decisão, aceitaram que ela era uma estudante genuína, mas afirmaram que o financiamento era insuficiente. Sara também fez uma entrevista telefónica com um funcionário do Ministério do Interior, mas o seu pedido voltou a ser recusado.

A busca de Sara por educação foi marcada por sérios obstáculos. Ela diz que sofreu violência e pressão por parte do pai para se casar, sobreviveu a um atentado suicida num centro educativo e deixou o Afeganistão com a mãe, os irmãos e outros familiares quando a situação no país se tornou perigosa. No Paquistão, para onde a família foi depois de sair do Afeganistão, não pôde continuar os estudos de medicina e diz que a polícia os procurou depois de terem permanecido no país para além do prazo dos vistos.

Enquanto estava em Cabul, Sara foi voluntária em clínicas médicas e estudou em casa, utilizando ficheiros de manuais enviados por amigos. Esperava obter documentos da Universidade de Cabul antes de sair do Afeganistão, mas diz que guardas talibãs a impediram de entrar no campus. Mais tarde, um antigo professor forneceu uma carta de referência na qual a descrevia como muito dedicada e competente.

A professora de inglês Jane Conway ajudou Sara a encontrar o curso em Glasgow e a candidatar-se a financiamento. Conway, que apoia mulheres afegãs que procuram prosseguir os estudos, criticou as decisões do Ministério do Interior e disse que as recusas tinham bloqueado uma oportunidade importante para uma estudante talentosa.

Sara está agora a estudar contabilidade e finanças noutro país, o que, segundo ela, é mais acessível do que a formação em medicina. Não revelou onde vive por razões de segurança. Não abandonou o seu objetivo de se tornar médica e diz que espera tornar-se cirurgiã cardíaca e ajudar as pessoas no Afeganistão. Se não puder regressar, gostaria de trabalhar com os Médicos Sem Fronteiras.

Fontes: The Guardian Education.