Uma onda de protestos juvenis está se espalhando pelo mundo, com manifestações que desafiam os governos em questões de educação, emprego, habitação, política climática e corrupção. O movimento ganhou impulso simbólico no fim de 2026, depois que jovens na França subiram na Coluna de Julho, na Place de la Bastille, em Paris, no que se tornou o maior surto de manifestações estudantis em seis décadas, segundo Gordon Brown.
Desde então, protestos surgiram em países como Itália, Índia e Albânia. Em Roma, estudantes que ocupavam uma escola secundária teriam iniciado suas reivindicações com as palavras “como na França”. Na Índia, o governo respondeu com força ao movimento Cockroach, enquanto estudantes albaneses passaram quase cinco meses protestando contra a corrupção e pedindo uma mudança de governo.
O desenvolvimento político mais significativo ocorreu na Sérvia. A Lista Estudantil, um grupo de candidatos ligado ao movimento de protesto, teria ajudado a remover um governo estabelecido há muito tempo, acusado de corrupção e de supostas ligações com o crime organizado, antes de conquistar um mandato eleitoral. O grupo agora se prepara para formar uma nova administração, um resultado descrito como sem precedentes.
O movimento também introduziu métodos alternativos de organização política. Oitenta e cinco assembleias estudantis escolheram os candidatos da Lista Estudantil por meio de reuniões públicas abertas, delegados rotativos e grupos de trabalho especializados. O processo não favoreceu automaticamente os apoiadores proeminentes: Vladan Djokić, reitor da Universidade de Belgrado e apoiador de longa data do movimento, não foi escolhido como candidato.
A campanha sérvia teria arrecadado quase €2 milhões de mais de 26.000 doadores individuais. O filósofo croata Srećko Horvat comparou a abordagem do movimento às tradições de democracia direta e auto-organização coletiva associadas à Comuna de Paris de 1871.
Os protestos atuais seguem-se às mobilizações juvenis no Quênia em 2024 e no Nepal, na Indonésia, nas Filipinas, em Madagascar, no Marrocos e no Peru em 2025. As redes sociais estão ajudando os manifestantes a construir identidades compartilhadas e a manter conexões, segundo Olivier Ertzscheid, professor sênior da Universidade de Nantes.
Durante setembro e outubro, jovens se manifestaram na Bélgica, na Áustria, na Grécia e na Itália contra o financiamento da educação; na Alemanha, contra a possível introdução do serviço militar obrigatório; e na Espanha e em Portugal, contra a habitação inacessível. Em outros lugares, os protestos se concentraram na poluição na Indonésia, na austeridade na Argentina e nos cortes de financiamento no Chile e na Colômbia. Na Alemanha, o grupo Gen Z regelt organizou manifestações em 21 cidades.
Outras ações estão planejadas. Uma grande manifestação estudantil está marcada para 11 de novembro na Austrália, enquanto sindicatos estudantis da Grã-Bretanha e da Itália estão preparando um dia conjunto de mobilização em 20 de novembro contra o aumento dos custos da educação.
Os protestos refletem pressões econômicas mais amplas enfrentadas pelos jovens. Entre elas estão a perspectiva de perdas de empregos relacionadas à inteligência artificial, o acesso limitado à educação, uma crise habitacional e a frustração com a forma como os governos lidam com a emergência climática e a justiça intergeracional.
No Reino Unido, as ofertas de empregos para graduados em uma grande agência de empregos caíram de cerca de 180.000, há quatro anos, para 50.000 atualmente. O emprego no setor de tecnologia entre pessoas de 18 a 24 anos diminuiu 30% entre dezembro de 2019 e dezembro de 2025, mesmo com o crescimento de 33% do setor. A fonte argumenta que enfrentar o desemprego juvenil deveria incluir formação pré-aprendizagem, a restauração dos subsídios de manutenção educacional e mudanças em um sistema de benefícios considerado inadequado para os mais jovens.
Os governos de todo o mundo também enfrentam o aumento da dívida, maiores gastos com defesa e subsídios à energia, deixando menos espaço para atender às expectativas dos jovens. Em toda a OCDE, cerca de metade dos gastos com saúde e seguridade social é destinada a pessoas com mais de 65 anos, embora elas representem 18,5% da população. As pensões respondem por 38% de todos os gastos sociais, enquanto as diferenças de renda e riqueza entre as gerações mais jovens e mais velhas aumentaram.
Valérie Becquet, socióloga da CY Cergy Paris University, afirma que as manifestações estão se transformando em um movimento social mais amplo, moldado pelas desigualdades entre grupos sociais. Embora as causas imediatas variem de um país para outro, a queixa central é semelhante: muitos jovens acreditam que a promessa de desfrutarem de vidas melhores do que as de seus pais já foi quebrada.
Fontes: The Guardian Education.